No sul de Florianópolis, o Ciclofest Rural 2026 acontece em um território onde o tempo segue outro ritmo: um lugar que convida a sentir, a viver bem e a cuidar!
Aqui vivem comunidades que preservam uma identidade moldada por matrizes açorianas, negras e indígenas. Antes do asfalto, antes dos muros, antes da pressa, este era essencialmente um território rural. Plantava-se mandioca, café, cana, banana e feijão. Cuidavam-se das hortas. O engenho girava para transformar a mandioca em farinha, alimento-base, sustento e partilha. A pesca artesanal garantia o que a terra não oferecia.
Produzir o próprio alimento não era uma escolha ideológica, era necessidade. As distâncias eram longas, os caminhos difíceis e o acesso à cidade, raro. Andava-se a pé, de carro de boi ou em baleeiras cortando o mar. Trocava-se peixe por farinha, farinha por café, café por histórias. Assim se tecia uma economia de proximidade: simples, solidária e profundamente humana.
As celebrações religiosas e festivas encurtavam os caminhos. A fé, o amor, o namoro e a alegria moviam as pessoas entre vilas e enseadas, em uma rica mistura cultural: o Terno de Reis, a Festa do Divino Espírito Santo, o Boi de Mamão, a Banda da Lapa, Festa da Santa Cruz, as benzedeiras, lavadeiras, as rendeiras com suas cantigas de ratoeira, e a farinhada. Não havia discursos sobre identidade cultural, havia prática viva. A cultura fluía como quem respira.
Entre o mar aberto e a baía calma, entre costões, pastos, dunas e florestas preservadas, o Sul da Ilha ainda guarda algumas casinhas antigas sem muros, quintais que se abrem para a rua, janelas ao alcance da mão e um jeito peculiar e divertido de falar. Há um ar de comunidade que resiste. Um cotidiano gentil que nos lembra do prazer de um café compartilhado, do banco em frente à casa, da conversa demorada.
Comunidades tradicionais e natureza exuberante
Distrito do Ribeirão da Ilha: Tapera da Barra do Sul, Caiacanga, Caiera da Barra do Sul, Freguesia, Naufragados.



No histórico Ribeirão da Ilha, vilas açorianas do século XVII seguem vivas em seus casarios coloridos, nos acolhedores e saborosos restaurantes e cafés que respeitam a arquitetura colonial, e nas igrejas voltadas para o mar. Nos ranchos de pesca, barcos descansam enquanto mãos experientes remendam redes ou saem em busca de uma “cocoroca” para enriquecer o almoço.
As linhas que desenham o cultivo de moluscos sobre a água revelam outro saber do mar: a maricultura. Essa atividade transformou a região em referência gastronômica nacional e internacional e em importante fonte de renda para muitas famílias que, diante da diminuição da abundância de peixes passaram a desenvolver novas formas de trabalho ligadas ao mar.
Aqui é lugar de prosa longa com os pescadores, repleta de boas lembranças dos tempos em que usavam as canoas baleeiras para atravessar a baía e participar da procissão de Nossa Senhora dos Navegantes ou para assistir à Banda da Lapa nos dias de festa.
Nas comunidades do mar de dentro, a pesca da tainha é muito ativa, seja no arrasto ou anilhada. A alegria toma conta das pequenas praias e movimenta a comunidade, já preparada com suas parelhas para se lançar ao mar.

Entre trilhas, ruínas históricas, mata atlântica preservada e o encontro entre mar e floresta, Naufragados representa um dos espaços mais simbólicos da ilha: um lugar onde a natureza continua ditando o ritmo da vida e onde a comunidade mantém viva uma relação profunda de pertencimento, memória e resistência.
Distrito do Pântano do Sul: Praias da Armação, Matadeiro, Pântano do Sul, Açores, Solidão, Saquinho, Costa de Dentro e Costa de Cima, o Sertão do Ribeirão e mais ao norte Distrito do Campeche.



No Campeche e praias do Distrito do Pântano do Sul, a pesca artesanal ainda que hoje mais escassa continua marcando o ritmo das estações. Entre maio e julho, a tradicional pesca da tainha movimenta a região: as redes são organizadas, as embarcações ganham forma e o entusiasmo ecoa das conversas nos ranchos de pesca.
Do alto, vigias observam o mar do alto e, mesmo com as tecnologias atuais, seguem atentos com os próprios olhos a qualquer sinal do cardume, prontos para acenar com as bandeiras em uma linguagem de sinais e cores. Quando chega a hora, as canoas entram em ação para que o “saragaço”- o arrasto coletivo da rede - traga o peixe e a fartura para a mesa das famílias. Um espetáculo cultural e humano que emociona quem visita a ilha nessa época do ano. Para saber mais sobre a pesca da tainha consulte este lindo projeto, Tainhas ao Vento.
Outro espetáculo são os barcos de pescadores nas enseadas: coloridos, balançando suavemente sobre a água e compondo uma paisagem que parece pintada à mão. Muitos deles hoje dividem sua rotina entre a pesca e o transporte de visitantes em passeios marítimos, especialmente para a Ilha do Campeche - (https://www.instagram.com/patrimonioilhadocampeche/ ) a bela ilha de águas claras, com inscrições rupestres de antigos povos, foi tombada pelo IPHAN https://www.gov.br/iphan/pt-br/superintendencias/santa-catarina como patrimônio arqueológico e paisagístico


No Sertão do Ribeirão, basta ouvir as histórias de um morador antigo para que o tempo se abra em detalhes: a infância vivida nos caminhos de chão batido, nos dias em que a chuva isolava o bairro e tornava impossível chegar a outras partes da ilha. O acesso era difícil, mas o pertencimento era profundo.
Falam das roças produtivas, do cheiro da mandioca sendo raspada, dos mutirões nos engenhos, das cantorias que ecoavam pelos vales nas noites de festa. Falam de um tempo onde era quase tudo feito pelas próprias mãos : plantar, colher, construir, tecer a palha, fazer o pão no fogão a lenha. Havia esforço, mas havia alegria. Viver em comunidade era necessidade e também escolha afetiva.
Antigos Saberes, Novos Caminhos




Hoje, o Sertão ressignifica essa herança. Entre morros cobertos de Mata Atlântica e trilhas que conduzem a cachoeiras escondidas, ali florescem iniciativas de agroecologia e produtos orgânicos, turismo de base comunitária e ecoturismo.
Pequenas propriedades produzem alimentos saudáveis; experiências de vivência rural e agroecológicas aproximam visitantes da cultura local; o conhecimento tradicional encontra novas formas de continuidade e partilha.
No Sertão do Ribeirão, os antigos engenhos de farinha ainda reúnem moradores em torno do trabalho coletivo. Assim como a chegada da tainha, esses momentos são celebrações comunitárias. Mais do que espaços de produção, sempre foram, e continuam sendo, lugares de encontro: colaboração, risadas, confidências e silêncios compreendidos. Uma verdadeira terapia comunitária antes mesmo de existir esse nome.

Entre o mar de dentro e o mar de fora, entre os dois Distritos, está a Lagoa do Peri, a maior lagoa de água doce da ilha, protegida por importantes fragmentos de Mata Atlântica. Ali, a natureza lembra que tudo é interdependente: floresta, água, alimento, cultura e seres humanos.
Neste território, o respeito ao lugar não é discurso. É condição de permanência.
O Sertão do Ribeirão e a Lagoa do Peri estão inseridas no Monumento Natural da Lagoa do Peri e a Unidade de Conservação é administrada pela Floram https://www.pmf.sc.gov.br/entidades/floram/index.php .
Para quem acredita que cultura, natureza e comunidade caminham juntas.
O Sul da Ilha também se transformou em morada escolhida por gente que veio de diferentes lugares do Brasil e do mundo, trazendo novos olhares, saberes e formas de viver: músicos, artistas, poetas, artesãos, cuidadores da natureza, esportistas e pessoas que buscam saúde, bem-estar e relações mais comunitárias. Essa presença amplia horizontes, fortalece a economia criativa, estimula iniciativas culturais e ambientais e cria pontes entre tradição e contemporaneidade.
Finalmente, este é um lugar onde a ruralidade não é atraso, mas sabedoria. Onde o mar se esforça em ser generoso e pequenas áreas produtivas ainda permitem obter alimentos saudáveis próximos à cidade , um privilégio raro entre as capitais brasileiras.
Um território que, em tempos passados, foi cenário da caça à baleia, quando delas se extraía óleo para iluminação pública e para a construção, utilizado na argamassa de igrejas e fortalezas. Com a evolução da consciência ambiental, essas mesmas águas tornaram-se hoje berçário de proteção das baleias-francas https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos/biodiversidade/unidade-de-conservacao/unidades-de-biomas/marinho/lista-de-ucs/apa-da-baleia-franca que passam tranquilas pelo litoral, oferecendo seus sopros e saltos como uma lembrança viva de que é possível mudar a história e regenerar.
É por isso que escolhemos este território para realizar o Ciclofest.
Porque aqui a cultura não é espetáculo, é modo de vida.
Porque aqui tradição e inovação podem caminhar juntas sem perder o chão.
Porque aqui sentimos que o desenvolvimento é possível, desde que venha com responsabilidade, cuidado e amor por este lugar.
Em uma ilha ambientalmente sensível como a Ilha de Santa Catarina, cada decisão sobre o território importa.
E assim, o Ciclofest nasce do desejo de honrar essa memória viva, fortalecer seus laços e ajudar a projetar para o futuro um território que ensina, com simplicidade e beleza, que cultura é aquilo que sustenta a natureza, o corpo, a comunidade e o sentido de pertencer.

